Estudando longe de casa

Planejamento e organização são fundamentais para estudantes que pretendem deixar a casa dos pais.

universidade_longe_de_casaO processo psicológico de morar e estudar longe de casa

O confronto com uma realidade diferente pode ser assustador no começo, mas é o que a mente precisa para se habituar à novidade. É o período conhecido como fase de acomodação.

Deixar a casa dos pais e começar uma vida longe das facilidades do lar é um processo natural na vida da maioria das pessoas. Muitos, porém, são obrigados a antecipar tal passo por causa dos estudos. A ansiedade acaba se tornando parte inevitável desse processo.

“Quando nosso cérebro se vê diante de uma situação desconhecida, faz com que nosso corpo sinta estresse.” A explicação foi dada por Ricardo Monezi, professor de psicologia e pesquisador do Instituto de Medicina Comportamental da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Para ele, tudo isso é muito comum, já que sentimos os reflexos da mente em nossos corpos. Numa situação como essa, nossa mente faz o corpo produzir mais cortisol (hormônio produzido pela glândula supra- renal que está envolvido na resposta ao estresse) e adrenalina (tipo de hormônio que prepara o corpo para grandes esforços físicos). “E a resposta desse tipo de estimulo vem à tona em forma de suor e mal estar no corpo”, continua o psicólogo.

Esse tipo de medo, segundo Monezi, é muito comum entre os jovens e se remete à posição com que nós, seres humanos, nos encaixamos e nos relacionamos na sociedade. “Além de sermos sustentados por uma estrutura biológica e psicológica, também temos o fator social que nos rodeia, que, em conjunto com os outros dois aspectos, nos transforma em seres psicobiosociais [mente e corpo em interação com o meio social] em constante busca pela aceitação de nossos pares na sociedade.” Monezi diz que a maneira com que nosso cérebro busca por essa aceitação é por meio da comparação constante das situações, lugares e pessoas por onde passamos, um processo que costuma gerar ansiedade, mas que é comum e passageiro.

Esse confronto com uma realidade diferente pode mesmo ser assustador no começo, mas é o que a mente precisa para se habituar à novidade. É o período conhecido como fase de acomodação. “Ele dura de três a oito semanas, é quando nosso cérebro se acostuma socialmente e geograficamente para então seguir sua vida normal”, tranquiliza Monezi. Passado esse período de adaptação, a ansiedade e o medo voltam aos seus níveis normais e dão lugar a aspectos que são mais duradouros e servem como base para pontos importantes na vida distante do lugar de origem.

Mas há casos mais extremos de saudade que podem gerar sintomas como crises de choro, aperto no peito e desconforto em qualquer tipo de ambiente. “Nesses casos é preciso procurar a ajuda de um especialista e deixar pessoas próximas informadas da situação”, adverte Monezi, que também dá outras dicas para vencer a dificuldade da mudança. “Esporte, grupos de estudo, discussão e até religião são ótimas atividades para ocupar a mente.” O que também pode trazer alívio é a visita de familiares e amigos. Monezi adverte, no entanto, que as visitas são boas, mas que é preciso haver tempo para adaptação. “É como um remédio, em pequenas doses faz bem e cura, mas em doses maiores ele funciona como um veneno”, compara ele, que também destaca a importância dos pertences pessoais na bagagem. “Objetos como travesseiros e cobertores, pelo cheiro, ativam nossa memória olfativa, enquanto fotografias trabalham no córtex visual. Ambos os casos servem para manter o vínculo de proximidade com o lar, são símbolos inconscientes que trazem conforto”, explica Monezi.