Curcumina pode auxiliar no combate ao câncer de cérebro

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Testes com animais indicam que a substância que dá cor ao curry inibe o crescimento de tumores cerebrais

Há alguns anos, a curcumina, princípio ativo do açafrão-da-Índia (Curcuma longa) responsável pela coloração amarelo-alaranjada do curry, tem ganhado espaço nas revistas e sites voltados à saúde e ao bem-estar. Com conhecidas propriedades anti-inflamatórias e antioxidantes, os benefícios atribuídos ao pigmento natural vão da redução da gordura corporal à prevenção e ao combate da Doença de Parkinson e de Alzheimer, até à inibição do crescimento de câncer cerebral.

Pesquisadores do Centro de Estudos em Estresse Oxidativo e do Laboratório de Enzimologia do Departamento de Bioquímica da UFRGS identificaram mecanismos celulares pelos quais células cancerígenas se reproduzem e investigam o potencial da curcumina no tratamento de glioblastomas, uma espécie de tumor cerebral maligno e bastante agressivo. Testes com culturas de células (in vitro) e com animais (in vivo) apontam que a substância diminui o tamanho dos tumores e aumenta a sobrevida dos animais sem causar danos às células saudáveis.

Os pesquisadores implantaram células do tumor em 22 ratos. Metade deles recebeu o tratamento à base de curcumina dissolvida no solvente sulfóxido de dimetilo por dez dias, enquanto a outra metade, o grupo veículo, recebeu apenas o solvente. Nove dos onze ratos tratados com curcumina apresentaram diminuição no tamanho do tumor, o que não aconteceu com nenhum dos animais do grupo veículo. Além disso, não foram observados quaisquer sinais de toxicidade oxidativa ou alterações em tecidos, no metabolismo ou no sangue. “É um composto natural, efetivo e não danoso”, resume o professor José Cláudio Moreira, um dos responsáveis pelo trabalho.

Antes de chegar na curcumina, foram testadas uma série de substâncias que poderiam funcionar como inibidoras do NFkB, um complexo proteico encontrado superestimulado nas células de glioblastomas e que exerce um papel fundamental no controle da formação e da progressão dos tumores e na resistência à quimioterapia. Assim, moléculas inibidoras da   NFkB são potenciais agentes anticâncer, capazes de potencializar o efeito de remédios tradicionais. Dentre as substâncias analisadas pelo grupo, a curcumina foi a que se mostrou mais eficiente e tem potencial para ser uma grande aliada no combate ao glioblastoma.

Os tratamentos tradicionais para a doença incluem remoção cirúrgica, radioterapia externa e quimioterapia; não se conhece, entretanto, nenhuma terapia que leve à cura desse câncer. A média de sobrevida dos pacientes é de cerca de um ano após o diagnóstico. “Qualquer terapia que prolongue a vida dessas pessoas é considerada promissora”, afirma Alfeu Zanotto Filho, que participou da pesquisa durante seu doutorado e pós-doutorado e atualmente é professor do Departamento de Farmacologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). “Se os pacientes tiverem seis meses a mais para organizar a vida, já faz uma grande diferença”, complementa o professor Daniel Gelain.

Um dos desafios para o tratamento da doença é a dificuldade de os remédios existentes chegarem ao cérebro. O órgão possui uma barreira altamente seletiva que protege o Sistema Nervoso Central de substâncias potencialmente tóxicas presentes no sangue. O problema é que essa barreira também dificulta a chegada de determinados medicamentos ao cérebro, incluindo os quimioterápicos tradicionais.

Para driblar esse problema e potencializar os efeitos da curcumina no tratamento dos tumores cerebrais, os pesquisadores, em parceria com grupos da Faculdade de Farmácia da UFRGS, desenvolveram nanocápsulas de curcumina e compararam seus efeitos com a substância pura. Sua formulação à base de lipídios facilita a entrega da droga no cérebro. Por isso, a nanocápsula se mostrou mais eficaz do que a curcumina em seu formato tradicional, possibilitando chegar aos mesmos resultados com uma dosagem 33 vezes menor. As nanocápsulas também reduziram a agressividade do tumor, proporcionando menores incidências de hemorragias intratumorais e necrose, e aumentaram a sobrevida dos animais.

A última etapa dos exames pré-clínicos avaliou a eficácia da combinação da curcumina com a temozolomida (TMZ), um quimioterápico tradicionalmente usado no tratamento de cânceres.  Os testes apontaram que a combinação não resultou em uma redução significativa dos tumores quando comparado ao uso do TMZ sozinho. O estudo indicou que a autofagia, um processo de “autodigestão” celular, que permite a degradação e reciclagem de organelas celulares danificadas, é um dos mecanismos envolvidos nessa resistência dos tumores à combinação das substâncias. Segundo os pesquisadores, a inibição desse fenômeno deixa as células de glioblastomas mais suscetíveis à ação da curcumina e do TMZ e pode indicar novas oportunidades de tratamento para tumores no cérebro.

Próximos passos

Com a fase pré-clínica concluída, o próximo passo é testar com humanos. Essa etapa, entretanto, ainda não tem data para começar. Apesar de o grupo já ter algumas parcerias definidas, como o Hospital de Clínicas de Porto Alegre e o Hospital São Vicente de Paulo, de Passo Fundo, para seguir a diante com o estudo, serão necessárias parcerias com empresas privadas interessadas em financiar a pesquisa. Segundo o professor José Cláudio, os custos envolvidos nos testes clínicos são muito altos para serem cobertos apenas com recursos públicos: “há muitos gastos com controle de qualidade, análise, logística, pagamento dos médicos e demais profissionais envolvidos, entre outros. O custo é muito superior ao de produzir ciência básica”, afirma. “A grande limitação é achar quem compre as ideias e as transforme em um produto comercial”, complementa Alfeu.

Além dos pesquisadores do Departamento de Bioquímica e da Faculdade de Farmácia, também colaboraram com o trabalho integrantes do Departamento de Química Orgânica e do Laboratório de Patologia da UFRGS, do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, do Centro de Ciências Químicas, Farmacêuticas e de Alimentos da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), do Hospital São Vicente de Paulo, da Faculdade de Medicina da Universidade de Passo Fundo (UPF) e da University of Texas Health Science Center at San Antonio, nos Estados Unidos.

Fonte: UFRGS