Medicina da Unicamp cria projeto para ensinar empatia e compaixão a alunos

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O projeto utiliza debates sobre ética e simulação de consultas com atores para treinar a habilidade de comunicação dos alunos

No início do curso, Rafael Gomes queria ser como Hunter “Patch” Adams, médico americano cuja história virou filme, conhecido por seu estilo baseado no afeto e na proximidade com os pacientes.

Com o tempo, viu que o mais provável seria virar um Dr. House, personagem do seriado homônimo que sabe tudo de medicina, mas quer distância de gente.

“Na faculdade, nossa visão poética é destruída. Aprendemos que ser bom médico é saber resolver problemas”, diz Gomes, 31, formado no ano passado pela Unicamp.

Ele não se considera um Dr. House e atribui parte disso a um projeto do qual participou no último ano.

Coordenado pelo professor Marco Antônio de Carvalho Filho, o projeto surgiu da percepção de que os alunos do último ano não estavam à vontade com seus pacientes.

“A faculdade dá conhecimento técnico, mas não ensina a ser médico, a lidar com pessoas, a essência da profissão”, diz Carvalho Filho.

Para ensinar empatia e compaixão a futuros médicos, há debates sobre ética e simulação de consultas com atores, de forma a treinar a habilidade de comunicação.

“O pensamento comum é de que é preciso se afastar do paciente para ter uma boa conduta. Vou contra essa corrente.”

Segundo o professor, os alunos entram em contato com a morte e ninguém conversa sobre isso no curso. “Muitos acham que a solução para não sofrer é se afastar.”

Antes de participar das simulações, o recém-formado José Antônio Nadal, 26, tinha medo de ser aquele que dá a pior notícia da vida de alguém. “Depois, entendi que podemos criar vínculo, trabalhar com o paciente e ser lembrado como alguém que o ajudou em um momento crítico.”

Mais de 500 alunos passaram pelo projeto. Os resultados foram analisados na tese de doutorado de Marcelo Schweller, médico da Unicamp.

Ele constatou que a empatia dos estudantes aumentou. Além disso, 94% dos alunos acharam que sua capacidade de ouvir o doente melhorou.

“Quando estão no ambulatório os alunos se preocupam em atender rapidamente. É raro um professor discutir se o paciente saiu satisfeito, se o médico soube ouvir. Na simulação, refletimos sobre isso”, disse Schweller.

Carvalho Filho acha que esse é só um começo. “Essa atitude mais humana deveria permear toda a formação, não ser concentrada em projetos ou disciplinas.”

A humanização se tornou necessidade, na opinião de Flávia Pileggi Gonçalves, coordenadora do departamento de medicina da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos). “Pesquisas mostram que mais coisas interferem no processo saúde-doença que gene ou remédio”, diz.

Na UFSCar, onde o currículo já é integrado conforme as diretrizes definidas pelo Ministério da Educação em 2014, os alunos estudam casos clínicos a partir da perspectiva de várias áreas.

“Se discutimos um caso de asma, falamos dos fatores psicológicos e sociais envolvidos”, explica Gonçalves.

Desde o primeiro ano, os estudantes já atuam no SUS e têm contato com pacientes.

“O aluno cria vínculos com as família. A metodologia enfocada na prática é um passo em direção a uma medicina mais humanizada”, diz.

Na Famema (Faculdade de Medicina de Marília) o aluno também pratica desde o início, em laboratórios com pacientes simulados, e é orientado por médicos e profissionais de comunicação. “Ele vê o paciente como um todo, não apenas a doença”, diz Mercia Ilias, coordenadora do curso.

Fonte: Folha de São Paulo